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diogo

mar

da vida

local:

são carlos/sp

ano:

2024

combinamos de fazer isso juntos, em família. fomos eu, minha mãe e meus tios. minha avó havia sido enterrada fazia alguns anos e haveria a exumação de seus restos mortais para que fossem dispostos em um lugar menor.

aqui em casa, vivem alguns animais, também. quero-queros, corujas, seriemas e teiús tem seus cantinhos, além dos inúmeros passarinhos, insetos, gongolos, aranhas e outros bichos que a gente nem chega a ver. de vez em quando, encontramos alguns destes caídos pelos caminhos, já sem vida.

eu nunca tinha presenciado algo assim. chegamos a tempo de ver abrirem o caixão. nada disso me assustou, mas reparei como as pessoas que fazem esse trabalho o fazem quase que de maneira automática, sem se tocar pelas várias emoções que podemos notar nos rostos de familiares que os acompanham. não achei ruim.

minha mãe não gosta de lidar com os pequenos corpos que encontramos por aqui, então sempre me pede para enterrá-los. não sei se ela sabe, mas eu nunca enterro. penso que na natureza, nenhum bicho é enterrado. imagino que quem quer que vá cuidar deles, estará na superfície, junto das folhas caídas.

uma coisa que achei bonita foi quando um de meus tios, emocionado, reconheceu minha vó por um detalhe do crânio, quanto amor aí. colocaram num saco todos os ossos e demais restos que podiam ser pegos com as mão e entregaram para nós. nós que teríamos que levar até o ossário do cemitério.

escolhi um lugar especial para deixar esses corpinhos. fica debaixo de uma árvores de copa densa, sob sombra, me parece ser um bom lugar para se viver. geralmente, preparo um cantinho entre as folhas e me despeço com alguma ou nenhuma palavra.

por algum motivo que não sei, quis carregar o saco com os ossos de minha avó.enquanto carregava esse saco, pude sentir a materialidade da morte. minha avó era uma mulher grande e eu podia carregar aquele saco sem esforço com uma mão só. afinal, somos leves depois que morremos.

enquanto eu a carregava, podia ver seus três filhos na minha frente. nesse momento, entendi a leveza. eu não tenho uma crença sobre o que acontece depois, mas de vez em quando, vou ver se deu tudo certo com os bichos. nunca encontrei nada.

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